Fake News na Era da Economia Digital

Os últimos anos foram marcados por um acentuado crescimento da chamada Economia Digital, a mesma responsável pela incorporação da internet, tecnologias e dispositivos digitais nos processos de produção, comercialização e distribuição de bens e serviços. Ou seja, por meio da tecnologia, a economia é movimentada gerando cada vez mais valor para o negócio.

 

Nesse contexto, o uso, tratamento e gerenciamento de dados pessoais se torna cada vez mais comum e essencial ao negócio uma vez que o setor digital inclui plataformas digitais, aplicativos móveis e serviços de pagamento, que utilizam desses dados e informações pessoais para movimentar o setor.

 

Com essa crescente manipulação e acesso de dados pessoais, que podem variar desde informações a respeito de orientação sexual, cor dos olhos a posicionamento político dos usuários, o modelo de coleta massiva de dados dos usuários pelas empresas e aplicações de internet permite que as fake news ganhem um contorno perigoso.

 

O termo fake news está condicionado a 3 principais elementos: I. a informação falsa; II. o dano ou ameaça de dano que a falsa informação pode causar; e III. o dolo do agente que a dissemina, ou seja, a vontade consciente de ludibriar o leitor.

 

As fake news se tornaram assunto de grande relevância uma vez que não têm como objetivo alterar a forma como um indivíduo pensa, mas se adaptar a essa forma de pensamento para influenciar sua decisão baseada em informações imprecisas criadas justamente para esse fim, manipulando o livre arbítrio do destinatário da notícia. Ou seja, na lógica dasfake news, um indivíduo pode, no âmbito se seu livre arbítrio, fazer uma escolha, acreditar em seu resultado baseado nas informações as quais teve acesso e ainda assim tomar uma decisão incorreta pois a informação era falsa.

Todos esses elementos se conectam quando a economia digital, grande fonte de dados pessoais, viabiliza, por meio do tratamento de dados pessoais, anúncios personalizados para cada usuário sejam criados baseados em gostos pessoais, opiniões políticas e características físicas, tornando o oferecimento de uma informação muito mais assertiva a cada usuário e permitindo que uma informação seja capaz de influenciar a decisão consciente desse usuário.

 

Um grande exemplo que relaciona a Economia de Dados com fake news foi o emblemático escândalo FacebookCambridge Analytica.  Segundo o que restou apurado pelas autoridades americanas, a empresa Cambridge Analyticacolaborou ativamente com a campanha do até então candidato à presidência dos Estados Unidos, Donald Trump, por meio da análise de dados de milhões de usuários cadastrados na rede social Facebook, responsável pela venda dessas informações à Cambridge Analytica. Os dados foram coletados por meio dos chamados “testes de personalidade”, nos quais os usuários do Facebook, ao responderem as questões indicadas, tinham seus dados transferidos para a empresa, essa responsável pela análise de big data e insights sobre o perfil comportamental de cada usuário submetido ao teste.

 

Os dados foram utilizados para influenciar a opinião de eleitores, uma vez que a partir da catalogação do perfil das pessoas foi possível direcionar, de forma personalizada, materiais pró Trump e mensagens contrárias à sua adversária, Hillary Clinton, facilitando a proliferação e acurácia das fake news.

 

A grande questão levantada após tais fatos virem a ser de conhecimento das autoridades americanas é que a empresa Cambridge Analytica, em momento algum, tratou de dados vazados. Pelo contrário. Os dados tratados pela empresa foram dados compartilhados pelos usuários e pela plataforma, Facebook, o que, de forma alguma, constitui ato ilícito.

 

Por essa razão o conceito de fake news, no contexto de economia digital é extremamente sensível: as engrenagens que sustentam a economia digital também fornecem munição para a criação de fake news com um poder de persuasão temerariamente eficaz.

 

O nível da acurácia de uma informação e seu respectivo poder de persuasão elaborada com base em informações obtidas acerca de dados pessoais é enorme, permitindo que a capacidade de influência ao usuário em tomar decisões permanentes e imprecisas seja maior ainda. O poder de manipulação da desinformação é o ponto que merece maior cautela, sendo o fator principal que motiva a construção de barreiras e combater sua existência.

 

Diante do exposto, fica claro que deve haver empenho direto, não apenas do setor público, mas também do setor privado para o combate ativo às fake news, o que nos leva a 3 eixos muito importantes sobre o tema. O primeiro deles é a conscientização da necessidade de uma educação midiática, capaz de estabelecer diretrizes suficientes para direcionar e capacitar a sociedade em como se comportar online, alertando-a sobre os riscos e características inerentes ao acesso e navegação nas redes sociais e na internet como um todo.

 

Além disso, é urgente que o setor público e privado reconheçam seus papéis nessa controversa e zelem por políticas de transparência em suas instituições. Grande parte da grande aderência dos indivíduos às fake news vêm da pouca confiabilidade que as instituições conferem ao público, fazendo com que notícias sensacionalistas, muitas vezes, não tenham informações concretas suficientes para confrontá-las.

 

Por fim, o poder público não pode se eximir de sua responsabilidade de criação de normas e regras que combatem os modelos de negócios pautados no tratamento de informações para a criação de conteúdo falso e enganoso. É característica inerente a esse tipo de negócio os 3 elementos já mencionados: I. a informação falsa; II. o dano ou ameaça de dano que a falsa informação pode causar; e III. o dolo do agente que a dissemina, ou seja, a vontade consciente de ludibriar o leitor; o que viabiliza que a divulgação de fake news em massa com poder de persuasão efetivo seja uma realidade não apenas brasileira, mas global.

 

Referências Bibliográficas:

 

Globo. Entenda o Escândalo de Uso Político de Dados que Derrubou Valor do Facebook e o Colocou na Mira de Autoridades (2018). Disponível em : <https://g1.globo.com/economia/tecnologia/noticia/entenda-o-escandalo-de-uso-politico-de-dados-que-derrubou-valor-do-facebook-e-o-colocou-na-mira-de-autoridades.ghtml>, acesso em 24/07/2020;

 

Jornal de Negócios. Fake News sobre a Economia Global como Estar Preparado para a Era da Desinformação. Disponível em: <https://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/colunistas/detalhe/fake-news-sobre-a-economia-global-como-estar-preparado-para-a-era-da-desinformacao>, acesso em 24/07/2020;

 

Mind Minders. O Consumo de Informações na Era das Fake News. Disponível em: <https://mindminers.com/blog/fake-news/>, acesso em 21/07/2018;

 

Nexo Jornal. Qual o Impacto das Fake News sobre o Eleitor dos EUA. (2018). Disponível em: <https://www.nexojornal.com.br/expresso/2018/01/14/Qual-o-impacto-das-fake-news-sobre-o-eleitor-dos-EUA-segundo-este-estudo>, acesso em 22/07/2020;

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